
Por que limite de velocidade?
Há razão para que alguém deva definir
a quanto você vai viajar?
por Bob Sharp
Uma pergunta que me faço há anos: por que existe limite de velocidade nas estradas? O que leva alguém dizer a quanto você pode viajar?
Como tudo começou, talvez ninguém saiba ao certo, mas a tal da "Lei da Bandeira Vermelha", na Inglaterra de 1896, bem pode ter sido a origem de tudo.
Pelo esdrúxulo instrumento legal, cada automóvel deveria ser precedido por um sinalizador -- um homem a pé -- portando uma bandeira vermelha... Isso mesmo, a velocidade máxima do veículo a motor passou a ser a de um homem caminhando.
Havia razões para impor limites de velocidade? Pode até ser que sim. Afinal, já havia um padrão, as carruagens a cavalo, que não trafegavam a mais do que 30 km/h, cavalos a pleno galope.
Assim, talvez alguém tenha ficado receoso de que as "carruagens sem cavalo" andassem mais rápido do que isso, que atingissem "velocidades alucinantes", pondo em risco a integridade física tanto de quem ia dentro delas quanto quem estivesse fora. Teria nascido aí o limite de velocidade.
Mas a idéia de limitar a velocidade pode ter-se originado também por obra e graça de um dos quatro gigantes da alma humana: o ciúme. Quem não admitia o automóvel-e não eram poucos-sabia que o novo e estranho veículo seria sem nenhuma dúvida mais veloz que os veículos de tração animal.
Não era fácil admitir uma fato desses e, por isso, haveria de se colocar um freio nessa vantagem inegável da máquina que iria mudar o mundo.
Começa a "temporada de caça"
Já nas primeiras décadas deste século, polícias do mundo inteiro partiriam para a "caça" dos que excediam o limite de velocidade, fazendo cumprir a lei -- uma justificativa plausível...
A História revela a existência dos temíveis registros fotográficos já a partir de 1920, na Alemanha.
Nos filmes de Hollywood das décadas de 30 e 40, a imponente e temível figura do policial-rodoviário montado em sua grande motocicleta Indian ou Harley-Davidson, perseguindo o infrator e depois parando-o para uma indispensável bronca ("Muito bem, cavalheiro, por que a pressa?") e subsequente autuação, tornou-se um clichê cinematográfico.
Hoje, as soluções para controlar velocidade empregam alta tecnologia, como os detetores de piso acoplados a câmeras digitais espalhados pelas ruas, como na capital paulista. Mas pode vir mais por aí.
Por exemplo, não é impossível os módulos eletrônicos de comando que gerenciam o motor poderem ser "inspecionados" por um policial com auxílio de equipamento próprio para ver qual velocidade o veículo desenvolvia.
Ou, ao se entrar numa zona qualquer, uma emissão de ondas de rádio agir sobre o módulo, de maneira que este mantenha a velocidade limitada, no melhor estilo da telemetria utilizada na Fórmula 1.
Uma visão típica de George Orwell no "Grande Irmão", o tema central de seu livro "1984", escrito em 1949, que fala do poder e da influência dos computadores sobre nossas vidas.
Limitar ou não?
Não há limite de velocidade nas auto-estradas alemãs, as autobahnen -- que belo e sonoro nome! -- e, mais recentemente, nos estados norte-americanos de Montana e Wyoming.
Pela nossa visão tupiniquim, imaginamos frequentes tragédias e acidentes dos mais graves, com numerosas perdas de vidas humanas a cada ano.
Certo? Não, errado.
Os índices de acidentes nessas partes do mundo são incomparavelmente mais baixos do que os daqui, mesmo depois que entrou em vigor o Código de Trânsito Brasileiro, em janeiro de 1998.
Mais importante, os índices lá vêm caindo ano após ano, graças em grande parte ao desenvolvimento tecnológico dos automóveis.
Nos principais países da Europa o limite típico é 130 km/h, mas quem já andou por lá sabe que este é um dado meramente teórico, em que as colunas de tráfego marcharem entre 150 e 160 km/h é fato normal.
O jornalista automobilístico José Luiz Vieira, um dos grandes nomes do jornalismo especializado, afirmou certa vez que "O brasileiro dirige muito rápido na cidade e muito devagar na estrada". É justamente o oposto do que deveria ser.
Não poderia haver melhor observação do que a do experiente profissional de 66 anos.
Ele conta que, na Inglaterra, estava testando um Jaguar XJ-12 e, trafegando a 190 km/h, notou que um carro da polícia o seguia. "Estou frito" -- pensou -- mas resolveu continuar no mesmo ritmo, uma vez que já havia sido flagrado. Para seu espanto, depois de vários minutos naquela situação, o carro da polícia tomou outra estrada, para seu alívio.
Ao devolver o Jaguar à fábrica, José Luiz relatou o episódio e recebeu a explicação de que, apesar de estar muito acima do limite (130 km/h), o policial analisou o comportamento dele na estrada, concluindo que não havia nenhum problema. Igualzinho a aqui...
Um dos malefícios da velocidades artificialmente baixas em estrada é o motorista "se vingar do controle" sobre ele nas rodovias descarregando sua indignação no tráfego urbano. Outro é tornar as viagens mais demoradas, podendo levar à sonolência e à distração, ambas causas de graves acidentes.
E há ainda a florescente indústria dos detetores de radar...
Ar, mar e terra
No ar, dentro das TMA, as chamadas áreas terminais que englobam um ou mais aeroportos, como a TMA São Paulo (Cumbica e Congonhas), a velocidade máxima dos aviões é de 450 km/h. É como se fosse o tráfego na cidade. Fora da TMA não existe limite.
O mesmo ocorre no mar: nas baías e próximo aos portos, as embarcações devem obedecer ao limites de velocidade impostos pela Capitania dos Portos. No mar aberto, em rota, o comandante da embarcação pode imprimir a velocidade que desejar.
Na terra, todos conhecem os trens de alta velocidade, com o TGV francês, o Intercity Express alemão e o trem-bala japonês. A velocidade deles é no mínimo de 250 kmh, já tendo sido feitas experiências de 500 km/h.
Por que as autoridades não limitaram a velocidade desses trens? A resposta pode ser bem simples: cabe ao fabricante do veículo e ao seu operador determinar a quanto trafegam, desde que haja condições para isso
Helmut Köln, primeiro-ministro alemão que deixou o posto recentemente, sempre disse que, enquanto no governo, manteria a velocidade ilimitada nas autobahnen, pois isso dava prestígio ao automóvel alemão ("carro de autobahn"), o que é a pura verdade.
Porsche, Mercedes-Benz, BMW e Opel são carros feitos para viajar horas a fio acima de 200 km/h, e é o que muitos motoristas fazem habitualmente.
A pergunta, então, é: por que deve haver limite nas estradas?
O novo código e a velocidade
Recentemente, com a vigência do Código de Trânsito Brasileiro, os limites de velocidade subiram. Pouco, mas subiram. Auto-estradas onde era permitido 100 km/h passaram a 120 km/h. Da noite para o dia.
Nada mudou no tráfego, porém viaja-se mais sossegado hoje, sem o sobressalto de ser flagrado à menor distração. O curioso é que muita gente que antes era multada, hoje não é mais, passando a ficar fora da zona de marginalidade como num passe de mágica.
A mesma pessoa, com o mesmo veículo, na mesma estrada. Antes, um fora-da-lei; de repente, dentro dela. Curioso, não?
Obviamente, há alguma coisa errada nisso tudo.
Muitos ainda se lembram de armadilhas que ficaram famosas, como a da Rodovia Carvalho Pinto, em São Paulo, uma moderna auto-estrada que, ainda por terminar, tinha o limite fixado em 80 km/h.
Num trecho de aproximadamente 70 quilômetros, havia cinco, seis dessas armadilhas, policiais de tocaia à busca de incautos. Um verdadeiro e abominável absurdo.
Em vez de cuidarem da segurança do tráfego como um todo, exercendo o essencial patrulhamento a bordo de seus veículos, a polícia rodoviária estadual agia exatamente como assaltantes na curva, ao melhor estilo dos filmes de faroeste.
"Caçar" quem estava viajando, com toda segurança, só que acima do limite imposto, era o seu único objetivo.
Contudo, essa neurose de multar, de controlar velocidade, de dizer a quanto se pode trafegar, continua, embora mais branda. Continua-se a falar de radares e detetores de velocidade nas estradas como se isso fosse sinônimo de progresso.
Os carros
Em termos mundiais, os carros foram evoluindo por causa das maiores velocidades permitidas nas estradas. Ou foi-se deixando que andassem mais rápido por mostrarem desenvolvimento? As duas coisas. Como a velha história do o ovo e da galinha, a de quem teria surgido antes.
Não existe hoje automóvel inseguro. Longe vão os dias de veículos inerentemente instáveis ou de pneus que estouravam sem aviso prévio.
Até o mais simples carro popular com motor de 1 litro reúne características de comportamento dinâmico que fariam inveja aos carros de corrida de 30 anos atrás.
Por exemplo, todos possuem pneus radiais sem câmara de ar e freios a disco nas rodas dianteiras. Invariavelmente os motores são colocados na frente e nenhum traz suspensão traseira por eixo rígido -- na frente, todas as suspensões são independentes depois de 1950.
Ninguém precisa ser piloto para dirigi-los em ritmo mais forte, pois os automóveis de hoje foram feitos para perdoar erros. Ou seja, a segurança ativa nunca foi tão elevada.
Os carros populares podem chegar a no mínimo 145 km/h; já há os que conseguem desenvolver 160 km/h.
Subindo a escala de cilindrada do motor, há automóveis fabricados no Brasil que já pertencem ao "clube" dos 200 km/h. Para estes, trafegar a 160 km/h significa usar apenas metade da potência disponível.
Há que se considerar também o alto grau de segurança passiva, aquele que minimiza os efeitos dos acidentes. Cintos de segurança de três pontos em todos os bancos, apoios de cabeça, bolsas infláveis (airbags) frontais e laterais, estruturas em que as extremidades são deformáveis e combinam-se com células de sobrevivência de alta eficácia, todos constituem elementos que conferem elevada segurança para os ocupantes.
Portanto, do ponto de vista material, os automóveis atuais não precisam ser contidos em velocidades anormal e artificialmente baixas.
O motorista
Qualquer pessoa pode dirigir em velocidades elevadas. Mas somente será necessário instruir os motoristas a dirigir rapidamente se isso lhes for permitido. Caso contrário, essa parte do currículo de aprendizagem não teria sentido.
Um trânsito rodoviário bem organizado, em que as regras de circulação sejam observadas e feitas observar por um sistema policial eficiente são o ponto de partida para a segurança de todo o sistema, e não a velocidade limitada.
Somente com essa nova visão as auto-escolas terão necessidade de se aparelhar tecnicamente e reunir instrutores gabaritados, e os exames poderão conter o rigor que merecem.
Não faz muito tempo, uns três anos, o Departamento de Veículos a Motor do Estado da Califórnia, nos EUA (o Detran daquele estado), passou a exigir que candidatos à habilitação fossem examinados num trecho de via expressa (freeway). É isso mesmo: na capital mundial das freeways não era exigido prova de habilidade para entrar e sair delas.
Esse exemplo mostra que sempre é tempo de melhorar a habilidade do motorista, por mais tarde que pareça ser.
Velocidade, considerando-a isoladamente, não traz perigo. Por exemplo, e muito mais arriscado andar a 40 km/h numa rua tipicamente residencial, estreita, do que a 160 km/h numa auto-estrada de desenho moderno.
Com o fim do limite da velocidade nas auto-estradas teríamos uma seleção natural de motoristas e veículos, em que os maus seriam cada vez menos e os carros cada vez melhores e mais novos.
Há, ainda, a questão da responsabilidade civil. Se o motorista souber que ele será responsável pelo que provocar, no sentido amplo -- julgamento, condenação e prisão -, não será mais necessário impor limite de velocidade.
Enquanto as autoridades não se conscientizarem que trânsito é assunto sério, pois envolve diretamente toda a sociedade, não teremos progressos nesse campo.
Continuaremos a ser implacavelmente "perseguidos" pela lei no que toca a velocidade nas estradas, como se criminosos fôssemos...
Bob Sharp
bobsharp@ruralsp.com.br
São Paulo, SP

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